sábado, 7 de janeiro de 2017

Quando eu era romântica

Sonhei, eu quis pra mim
A vida sempre ao teu lado

E o passado
Não é presente, escasso
o beijo ausente, a cama fria.

O futuro,
imagem fugidia.

A agonia é uma fêmea louca.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Ir ao show do Morrissey fez todo sentido para mim: poesia, dramaticidade e afirmação da existência são alguns dos conceitos que sempre apreciei e isso tudo aconteceu na apresentação do último sábado. Foi um reencontro de um amor adolescente. Eu era fã de Renato Russo, que dizia ter um grande sonho de conhecer o vocalista inglês, foi assim que acabei chegando até esse. O preâmbulo do show começou na voz de uma cantora (se alguém souber quem é, por favor me diga) que anunciou o tom da noite. A apresentação misturou imagens e vídeos as canções numa concomitância exacerbada, lírica, melancólica: vídeos de violência de policiais, onde a nitidez de alienação desses mostraram como podemos nos deixar levar por ideologias extremistas (olha aí o sufixo ISTA...). A pior parte foram os vídeos de matança animal para consumo, horripilantes, chocantes, estilo Lars von Trier, anunciados por falas como "com mais de oitenta divindades na Terra, nenhuma delas conseguiu salvar os homens". Muitas imagens eram flamencas, dialogando com canções latinas, cantadas inclusive em espanhol pelo violeiro da banda. Sim, Morrissey foi gentil com os músicos, deixou espaços para cantaram, solarem, apresentarem-se. Para o público, somente ele. Quando alguém da plateia resolveu tietar dando um berro, simplesmente ouviu "Do you need a microphone?". Era a hora e a vez de Morrissey neste momento brilhar com uma canção com apenas voz e violão. A gentileza do músico para com o público foi isso, sua performance: que voz!!! Estava afinado, preciso, cortante. Quanta vitalidade também. Ao final, até tirou a camisa, deixando aparentar que em meio aos problemas de saúde, a música o mumificou. Uma lenda que consegue oferecer um show incrível, tocando apenas uma música dos Smiths. O show foi do Morrissey, o show era o Morrissey e confesso: lágrimas rolaram diante de tanta beleza, exuberância e força. E está tudo até agora, ressoando, existindo, cantando...



 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Mas tem dias que o externo não convence meus pensamentos. A vulnerabilidade chega, ou melhor, desadormece. Mostra-se triunfante, dona de tudo, filha da puta.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Vida: livro em branco, vai se enchendo de sentido conforme o caminho por sua ponte simultânea ao caleidoscópio de imagens e paisagens, nada é sólido, átomos estáticos, vazam-se por entre os poros, entranhas, buracos e ao alcance da visão todas as certezas, todas, malditas, por que não me acostumei com a verdade, por que tanta ilusão, pra que fazer da vida algo tão fabulosamente diferente daquilo que se apresenta, nem sei se você ao menos existe, isso que você tem eu não sabia, e o que penso ter nunca foi teu: meus deus, o que é real?

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

SICUT ENIM HODIE , PANEM ET CIRCENSES

Ir a primeira vez ao circo com trinta e dois anos(!) é sentir-se, de certa forma, como o cavaleiro Anthonyus Block ( Max Von Sydon) do filme “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.
Não que eu não encontre mais sentido na vida e, de repente, o circo e coisa e tal. Mas sabe, é interessante pensar nessa arte quase como uma forma de resistência a toda transformação voraz que nossa atual sociedade vive: ao longe, a grande tenda com suas as lâmpadas tipo “bolinhas” chamaram minha atenção para essa maneira reconhecível desde sempre.
Ao chegar na bilheteria e adentrar no interior do espetáculo, homens barbudos fumando e conversando perto de seus trailers: uma olhadela mais curiosa para saber o que pessoas de lugar nenhum carregam: bom, além do normal, o necessário. Nada de tvs 56 polegadas, closet para as roupas, espaços divididos num lar que deve sempre unir. Volte e meia o essencial é realmente invisível aos olhos!
O palco era modesto em tamanho, a plateia intimista em relação a esse. Enfim, a sensação de ficar perto me fez perceber cada movimento, cada detalhe nas roupas, cabelos, maquiagem; imaginar as horas e horas que cada artista se submeteu para executar seu número foi um dos meus pensamentos; ressignificar o que acho difícil às vezes desempenhar foi outro. O corpo, cheio de possibilidades, pode ensinar aos pensamentos que esses também podem flexibilizarem-se.
Eu acreditei em tudo: no ciclista que diversas vezes brincou de desequilibrar-se em bicicletas impensáveis (desmontáveis, tortas, de todos os tamanhos) aos palhaços que fingiram me sujar com ovos que estavam “grudados” na travessa por um cordão que também fingiram perder o equilíbrio; na contorcionista e seu suposto destroncamento de membros ao mágico com seus truques (uns desvendáveis por uma parte do cérebro que insiste em raciocinar e outros que ficaram no insólito do absurdo -não quero pensar sobre esses outros, ponto!); os malabaristas, precisos, concentrados, presentes. O circo é um agora constante...
Fui toda levada pelos sons em meios ao gestos, pelas luzes em meio a música, pelos sorrisos fáceis. Como fui relapsa para rir ontem. Como me deixei conduzir por minhas palmas espontâneas, minha mão levada à boca aos sustos torrenciais; os suspiros, ar repentino que levamos ao coração em catarse.
Senti-me como Anthonyus porque um dia perderei para a morte, mas meus olhos serão, assim como os do cavaleiro ao experimentar algo significativo na vida antes de morrer, de uma felicidade imensa por ter visto, dentre outras coisas, tal espetáculo.
Sou essa porção menina que muitos falam mais pelo o que não vivi do que insisto em não deixar ir embora.



quarta-feira, 17 de junho de 2015

Anda para não perder a cabeça

Ela tinha um andar diferente. Embora a carne não preenchia muito as roupas, faltava mais alguma coisa. O passo conforme o segundo, o corpo inclinado, a pressa. Isso, a coisa mais estranha de tudo é que faltava a pressa. Em forma de ritmo, não necessariamente a pressa em segundo, porque também já tinha idade mais avançada. Aquela pressa-destino, pressa-para-não-perder-tempo, pressa porque eu preciso chegar, resolver, fazer, limpar, decidir, ouvir, dizer, receber, entregar, pagar, assistir, contar, abraçar, pressa-para-morrer mais convicta, para amar, para sofrer.
Enfim, não tinha nada. Esvaziada de sentidos, símbolos, coberta dos instintos mais primitivos ela caminhava. Estava vestida sim, e se apoiava na bolsa, o corpo ao compasso molenga, sacudido, tinta no cabelo. Ela andava e tascava na minha cara “por que que é que a gente se deixa, hein?”. Incomodei-me com a falta de tudo.
Assim, passei por ela. E seu olhar tinha tanto! Por um momento não foram as histórias cosmogônicas mas aquela mulher, aquela mulher que me fez sentir ridícula, ínfima, pouco. Foi seu nada, sua divagação inerente em pleno meio-dia, sua falta de compromisso, de pressa, de preocupações, mas somente sua locomoção vagarosa, vertiginosa, obtusa que publicamente fazia ser que me fez rever.
Tive raiva, ódio, indignação! Achei-me sôfrega ao comparar meu andar, tão consonante com minhas ideias, tão expoente de minha auto percepção. Se ao menos eu dançasse, se ao menos eu sorrisse, se ao menos eu não ficasse me perguntando tanto, mas apenas fizesse  o mesmo.
E por isso indignação: eu conseguiria transcender meu andar em todas as esferas que permeiam minha alma. Eu seria sopro. Mas hoje eu sou magma.

sábado, 25 de abril de 2015

O caminho da crônica

                                                                                                                                     Ana Paula Moraes

Os pequenos sons balbuciam a levada do dia e me deixam constrangida de dormir mais. Há sol lá fora. Então, como quem ritualisticamente se espreguiça ou toma água quando acorda, pego minha caneta e folha em branco. Em tempos digitais, faço à moda antiga, sou romântica e jovem. Desço a rua de casa e lá, longe, vejo prédios despontando que continuam para mim a anunciar o futuro.  
Em contraste com o céu, azul, azul, uniformemente pintado, sem vacilos, desproporções, é a vida pois, contínuo a descer ruas e desta vez atento-me para o fato de morar em uma espécie de vale e que desejo saber seu outro lado. Porque mistério é aquilo que meus olhos veem ao longe, mas meu corpo fica. Ah, as estrelas: avisam a gente todos os dias que tudo é muito, muito além-daqui-agora.
Atravesso uma ponte, lembrando que morria de medo de atravessá-la quando era pequena junto de mamãe: tinha medo de que ela caísse e fosse embora. E eu, que não sabia e não sei nadar, teria de me conformar com aquilo que eu ainda não poderia e não posso.
Encontro a rua, um portal de árvores. É como se tudo já existisse: é como se este lugar fosse um polo magnetizador, me atraindo para o indeterminável. E lá, bem ao fundo, encontro-me: uso uma camiseta branca, calça preta, sapatilha. Estou com a mesma caneta, folhas tiradas do mesmo caderno, mexendo os lábios, pois falo sozinha, ontem e amanhã. Chego mais perto e sim, sou eu! De tudo igual agora, menos a tonicidade da pele: sou eu com peles flácidas, as gorduras moles, mais pintas. Aos nos olharmos, reconhecemo-nos. Os olhares são idênticos, além da roupa e dos objetos. E desse, reconhecemos também que nossa história, tão intensa e cheia, é passageira. E é de crônica que vamos escrevendo exatamente a cena que agora dividimos: ela já não se pergunta, enquanto eu hoje persisti no mistério.

Ambas querem ocupar o lugar uma da outra. As folhas caem ao nos abraçarmos, sequenciando a história de nossas vidas: minha última crônica será sobre o dia que encontrei comigo mesma e soube do que era.  

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Quando o amor é ressignificado ou os vietnamitas tem razão

Ir ao show de Paul McCartney foi interessante mesmo antes de começar. Perceber as movimentações nas ruas próximas ao estádio, as pessoas com suas capas de chuva em plena quarta-feira dava um tom antimonotonia para nós, terráqueos de São Paulo City.
Quão desesperador foi chegar ao estádio e ver essas mesmas pessoas, agora em mar, construirem filas gigantescas. Fiquei desesperada, pois minha intenção era chegar cedo mas o trânsito, misturado a chuva, com o fluxo de carro por conta justamente do show de McCartney, fez tudo ficar terrivelmente lento, populado, caos.





A sorte (?) foi que o portão da pista Premium estava sem filas. Entrei e me deparei com poucas pessoas em frente ao palco, tudo por volta das 19h50min. E então a peregrinação rumo à uma noite alucinante começou. Bom, por estar sozinha não me submeti a tomar qualquer coisa. Desde água a bebida alcóolica, o fato é que não podia me dar ao luxo de ir ao banheiro e perder meu lugar. Aliás, ao visualizar as poucas pessoas que estavam a minha frente, esses com credenciais do show, provavelmente do fã-clube e também do ingresso “hot-spot”, que dava direito a pessoa ter acesso a passagem de som, ao staff de Paul e a pista Premium, o fato é que todo mundo estava bem vermelho, pinta de quem esteve o dia todo esperando a abertura dos portões para grudarem a barriga na barra de contenção.







Um grupo de jovens que estava ao meu lado conversava sobre o show do dia anterior. Eu tinha dado uma olhadela no MultiShow mas preferi tirar do canal para eu mesma não romper as surpresas que teria. Mas os adolescentes falavam era do show no sentido físico: sim, eles tinham ido na noite anterior também! A gente quando nasce pobre e ascende para a classe média de vez em quando não esconde tal trajetória. Minha pergunta idiota foi: "Então vocês pagaram dois shows? Não, não, faltou um deles responder, “Paul fez estilo baciada: leve dois e compra um...”
Eles comentaram sobre os shows que Paul realizou nos outros estados, as expectativas para alguma mudança no playlist da noite “Qual será a música que ele abrirá hoje”? Eis a magia do amor: esperar encontrar sempre algo novo, diferente, naquilo que já se conhece...mas estará no outro tal magia ou esse novo vem de você?
A verdade é que os jovens eram fofos, como todos os jovens: uma das meninas estava vestida de Paul by Sargent Peappers...eu amei, linda, linda.



Por quase todo o show eles adivinhavam qual era a música pela mudança do instrumento, pelo primeiro acorde. E não conheciam só os clássicos. “Everybody out there” foi ecoada pela maioria das pessoas.



Paul é generoso com os fãs. E detalhista, já que é ele mesmo quem assina a direção de cenas de seus espetáculos.
A iluminação estava perfeita: os refletores, juntamente com as imagens projetadas,  “conversavam” com as canções. Impecabilidade no som, músicos que constantemente trocavam instrumentos e revezavam-se nas posições desses.







Quis colher todos os detalhes de Sir McCartney em minhas retinas: os instrumentos de cada composição (sim, o piano de Lady Madonna é muito bacana, por isso sempre gostei de seu timbre), a maneira como dedilhava, sua magreza e brancura.



Em meio ao intervalo de uma música, um homem grita “Se fosse mulher eu dava para você, Paul”. Bom, se tudo acaba em sexo, seja físico ou verbal, esse sempre melhora se vir acompanhado de boa música. Ali estava um homem que em algum momento soube agradar algum gosto musical, esteja ele nos anos 60, 70, 80 e assim por diante. 





De Beatles a Wings, passando por de Jimi Hendrix, o show é um show por si só: em “Live it Die”, o primeiro estouro que a canção fez me deixou atordoada.  A composição trabalha com tanto barulho e pirotecnia que ao final até Paul  brincou tapando os ouvindo e fazendo alusão à altura dos efeitos.










Paul ora é simples e mágico, como com seu violãozinho em Blackbird, (embora dessa vez houve inovação com relação ao show de 2010, já que Paul é elevado por uma parte no palco), ora é vibrante e tecnológico como em “Helter Skelter”, porque todo o palco se mobiliza num jogo de luzes e desmontes em consonância com a linguagem midiática e com a pegada pesada que a canção possui.




Dos clássicos dos Beatles, maravilhosa surpresa: I’ve just seen a face; dos Wings, “Listen what the man said”. Fiquei mais cética do que emocionada, ao contrário do primeiro show que fui, em 2010. Só em “The Long and Winding Road” transbordei...



Ao final, chuva de papéis mostraram um show que mais pareceu um espetáculo circense (nossa, só agora me dei conta ao escrever isso que não foi à toa que Paul executou pela primeira vez “Being for the Benefit of Mr. Kite!”...AHÃÃÃ!!!).



Fui embora meio distante em tempos, lembranças. A chuva, de água mesmo, não parou um instante de cair...Para os vietnamitas do sul, a água tem simbologia regeneradora, visto que está associada à poção de imortalidade. Acho que é isso que aconteceu comigo: depois desse show tenho amor por esse homem suficiente para repassá-lo às minhas gerações futuras...






segunda-feira, 3 de novembro de 2014




Salesópolis, Beatles e o espaço


Mês passado realizei um passeio com meus alunos da rede estadual para Salesópolis. O município é o berço do histórico Rio Tietê. Mais especificamente fomos visitar o Museu da Energia de Salesópolis, por conta de um projeto que minha escola vem realizando sobre o uso consciente da energia.
E não é que um didático passeio pode se transformar em algo mágico?
Após assistirmos uma aula sobre a construção da usina, como era a Mata Atlântica desde a década de trinta do século passado até os anos dois mil, o desmatamento e as perdas ocorridas, além de um quiz interessante sobre a fauna e flora desse bioma, fomos fazer uma trilha.
Estou eu, educadora-mãe acudindo uma aluna que havia atolado o pé na lama, retirando essa de seu tênis em uma bica quando escuto um dos jovens monitores do passeio cantando “Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band”.  Olho para ele, em meio ao sol escaldante e falo: “Putz, jura que você está escutando isso?”.
Pronto! Eu e Lennon (sim, este era seu nome. E nada de John, quem dirá Winston, apenas Lennon) me contou de sua paixão pelos Beatles, que seus pais tinham medo de que ele não gostasse de seu nome. Foi dele que ouvi que o show de Paul McCartney tinha sido confirmado. Contei de quando fui ao primeiro do qual ele não foi, além do show do Ringo, um show antes de tudo de rock do que propriamente de um ex-beatle (venhamos e convenhamos, faltou música pra caramba...). Falamos da carreira de cada beatle e me ocorreu um duelo de imagens, sons, passado: começamos por falar de George Harrison, que no começo era o que mais eu me identificava, por conta da questão mística. Eu falei do álbum triplo “All things must past” e ele me falou de “Dark horse”. Sobre Paul citei “Ram” e ele me veio com “Venus and Mars”. A respeito de John Lennon, aclamei-o dizendo da força e ao mesmo da simplicidade que fazia dele um gênio. O Lennon de Salesópolis olhava-me com um olhar expressivo e ora entrecortava-o cantarolando uma música e outra do “Abbey Road”, tempo de ouvir o álbum e acabar a trllha.
Recomendei “Mutantes” e “Arnaldo Baptista”; ele a banda “O som nosso de cada dia”. Nos despedimos sem um pedir para o outro Facebook, WhatsApp, essas coisas que nos mantêm em contato, qualquer coisa do gênero. Caso venhamos a nos encontrar, será em algum lugar no mundo real. Esse no qual podemos ver o entusiasmo nos olhos quando acontece de você poder trocar com alguém algo que tanto gosta. Mesmo tão jovem, a troca foi mútua. Quem sabe o vejo tocar com sua banda que mescla, entre um sonzinho cover de Beatles, Floyd ou Doors, composições próprias “para o público não achar ruim”.
Pode ser, quem sabe, no show de Paul...“Venus and Mars”, essa obra belíssima (épica, perfeita, sinestésica, bem ao estilo Sir McCartney) na qual Lennon me apresentou e que não paro ouvir cujos versos que dão nome para o álbum servirão para a ocasião...

Sitting in the stand of the sports arena
Waiting for the show to begin
Red lights, green lights, strawberry wine, 
A good friend of mine, follows the stars, 
Venus and mars
Are alright tonight.



Ps.: Faltam 22 dias para o show do ano...pista Prime, aqui vou eu!!!


  

segunda-feira, 17 de março de 2014

Quando eu nasci, por Nietsche

Quando eu nasci eu ri de mim mesma: eu que sempre me soube, me vi assim, sem saber quem era. Chorei muito, mas garanto, ri por dentro. 
Uma matrioska existencial. Pipoquei aos montes: me encontro espalhada nas pinceladas do dia, escorrida na noite, adentrando a paisagem que vem. Estou dobrada em cada papel.
Com quase todas as teorias de amor e ódio banidas, sou esculpida pela vida, gesso do tempo, obra prima: porque inacabada. E esvaziei-me: estou reaprendendo a olhar, a ouvir, a dizer. A morte não é minha, é do meu destino. Não cabe a revelação do mistério.
Tem dias que me pego tranquila, e isso me deixa nervosa. O nervosismo me faz evoluir para ser mais tranquila. Efeito estilingue: retrocedo para ir mais longe. No final das contas, o tempo não me deixa mentir. 
Percorro espaços, sou de carne e beijos escassos. O que me faz rimar com aço, é esse coração em frangalhos. Porque depois que eu nasci, conclui: não é só a morte, mas a vida, a vida também é minha.  
Quando eu nasci, por Sloterdijk


Quando eu nasci eu fiz força para vir ao mundo. Minha mãe estava nove dedos dilatada, mas eu emergi com a certeza de ser a última. Não fui programada, mas a vida por si só impeliu seu querer.
Foi em uma terça. O dia em que nasce é o seu dia, está escrito, empoeirado pelo mistério.
Encontrei olhos inseguros, mas muito queridos. Miúda em estrutura, meu pai também abençoou, e só. Encontrei ainda um irmão, mas por conta dos olhos de minha mãe eu não quis dizer muito. Deparei com pai, mãe e irmão: e logo depois pai e irmão se foram e mãe e eu ficamos.
E durante toda minha vida tem sido assim: uma parte comigo, a outra pro desconhecido. Buraco, que ora negro, ora o vir a ser, fez razão de sempre sentir.
A minha morte me faz questionar: a minha não morte, essa que agora está comigo enquanto escrevo, me faz continuar a questionar.

quarta-feira, 5 de março de 2014


Quando finge de esquecer

Voltava da escola. Mochila pendurada, cabisbaixo, andarilho. Em frente ao portão, arrastou-se para a entrada da casa, que antes era isso, e agora não sendo, fazia tristeza grande, dor no peito, suspiros. Atravessou o patamar e na entrada da porta via ao longe a avó, estendendo roupa no varal. Foi caminhando em sua direção, enquanto deslizava as mãos no sofá, mesa. Queria ver seu olhar, para saber que haveria conforto maior que o silêncio. A vó, cabeça branca, pele mole, gestos firmes viu quando o menino, parado, a olhava. E de fato, fez-se o entendido. Terminou de estender as duas vestes que faltavam e foi na direção do neto.
Penteou seu cabelos com os dedos, deu um abraço, tirou-lhe o peso. E tinha mais. Permaneceram abraçados por um momento. Estranho, não lembrava de quando tinha sido o último abraço. Pensou sério, e isso não era bom.
Despregando-se do menino, a avó perguntou:
- Como foi a aula querido?
O menino tinha ouvido a pergunta mas não tinha pensado na resposta:
-Bem...
- O que há com você meu amor? Quer conversar?
- Ah não vó, estou cansado.
- Ora vamos!
A anciã pegou uma cadeira e colocou-a na porta que dava para o quintal. O garoto encostou-se no batente. Olhava o tênis azul, da cor do short, sua cor predileta. Seu pé tinha crescido. E disparou:
-Vó, por que mudamos? Por que não tem coisas que ficam sempre como são, para serem mais fáceis?
-Bom, como o quê querido? Dá um exemplo para mim.
- A vó, sei lá, como gostar de jogar somente em uma posição no time de futebol, sabe? Como eu que sempre sou o goleiro da turma. Eu treino sempre para agarrar no gol, sou bom, meus amigos sabem que gosto, que sou bom, porque sempre tô lá, entende? Aí, sempre me escolhem para ser o goleiro. Não tem erro.
- Meu querido, quem disse pra você que é mais fácil assim?  E se você descobrisse que ser ponta-de-lança é melhor?
- Ué, eu teria que tentar nessa posição né vó! Mas é difícil quando já está acostumado com as coisas.
-Sim, é sempre mais difícil quando estamos acostumados.
- Há algo pior que ser esquecido?
- Como assim meu filho, ninguém esqueceu de você!
- E por que não falam comigo? É egoísmo ou o quê? Ou eu sou um doente para não falarem nada?
- Seus pais estão em um momento de transição, que nem quando o treinador pede para um jogador substituir outro que está machucado. Aí ele joga bem, supera expectativas, é, surpreende, e percebe que não seria nada mal se tentasse continuar jogando nessa nova posição.
- Ah vó, isso é um jogo!
- Isso é uma situação, meu querido. Nem sempre estamos certos daquilo que pensamos. Quem é melhor, o jogador que só jogou em uma única posição ou o jogador que já jogou em duas posições?
- Acho que, eu responderia que, seria o que sempre jogou em uma única posição. Mas, bem...
-Sim?
- Talvez nem ele saiba disso.
-  E como ele saberá?
E falando baixinho, concluiu:
- Quando experimentar...
E deu de ombros. Não disse mais nada. Pegou a bola que estava no canto do quintal e começou a chutá-la. A avó o observava, dando risadas de algumas trapalhadas da bola, não dele.
Naquela tarde fez muito calor. O céu com algumas nuvens. Ao parar, depois de alguns minutos para descansar, observou o alto. A brincadeira consistia em jogar para esquecer a forma que tinha determinava nuvem. E a brincadeira também consistia em tentar esquecer o que tinha pensado ser cada forma E aí teria certeza ou não? E aprenderia algo mais?
Pedro sorriu. Estava feliz que a avó estivesse lá. É verdade...O garoto riu! Olhava para ela em outro tempo. Tinha outro tempo no dele, ambos resultavam em uma síntese. Tanto mistério para uma tarde de esquecimentos.


terça-feira, 4 de março de 2014

Urubu de estimação
                                   
-Nossa, como ele voa bonito, pai! 
O menino tinha gostado do urubu. Fosse pelo voo, onde a ave fica planando com suas asas em desenho ao céu, fosse pela aterrissagem, onde usa recursos que a física bem explica, além da envergadura que atribuía ao animal grande imponência, o fato foi que queria um urubu como animal de estimação.
-Mas filho, esses animais não nasceram para ficarem trancados!
-Nenhuma ave né, pai!
-Sim, mas eles não são animais domésticos, não servem para ficarem em casa, para você passear com eles, essas coisas...
Ora, bolas! Mike Tyson possuía tigres, Emerson Sheik um macaquinho, ele só queria um urubu... Sempre teve apego as aves: aliás, o urubu se parecia, um pouco é verdade, com um falcão, só que não caçava, mas sim limpava os lugares com sua tarefa. Alguém tem que fazer o serviço sujo, e nem por isso menos importante.
O menino ficou emburrado. Pensou em argumentos possíveis para rebater o pai.
-Pai, mas como você sabe disso?
-Disso o que Vitor?
-Disso, que os urubus não servem para serem animais de estimação?
-Ué, quem você conhece que tem urubu em casa?
-Ninguém!
-E então? O pai já estava sem paciência.
- Ah pai, isso não é lógico!
- Como assim? Por que não é lógico?
-Bom, todo mundo fala que temos que comer comida saudável, mas nossa família come 10 pizzas por mês afim de trocarmos os tickets que vem nas caixinhas pela décima primeira, porque é grátis; todo mundo fala que as famílias precisam distinguir suas prioridades daquilo que é supérfluo, mas a mamãe tá sempre no vermelho por causa daquilo que ela já tem; todo mundo fala que é importante reciclar o lixo, mas até agora já passamos por quatro quiosques e não vi nenhuma lixeira reciclável. Não acho que entre o que se fala e entre o que de fato é haja uma forma segura, realidade palpável, verdade inquestionável...
O pai olhou o filho com espanto. Estava feliz de saber que ele tinha, mesmo que para um pedido estranho, reflexão e poder de persuasão. Apenas treze anos e com esse senso crítico, que maravilha! As aulas de redação da professora Elaine realmente estavam fazendo efeito.  
Pensou nas bordas da pizza, que ninguém da família comia. Um urubu não seria mal ideia. Mas tinha que ser filhote! Afinal, pelo menos pro lixo orgânico, a coisa já estaria resolvida.


Mulher de 30

-Mas você é uma mulher tão experiente!
Lembrava do que seu paquera virtual havia dito na última conversa…ainda se usa a palavra “paquera”?
Não, não. O fato de ter ficado tanta tempo com uma pessoa justamente a tornava um paradoxo. Era muito experiente em conviver com a mesma pessoa, mas não era experiente com os homens. Era seu primeiro encontro depois do já distante divórcio, sem filhos. O fato foi que repetiu a frase para si enquanto se arrumava para seu primeiro encontro “olho no olho”: se achava até moderna com a situação. 
Afinal, aprendeu que profundo é alguém em qualquer lugar que tenha olhos para sentir, pele para enxergar...não tinha preconceitos, mas quando pensava no que dizer, em que observar...Será que dará certo? Falava para si novamente a citação de seu affair. Não, não podia querer casar no primeiro encontro. Mas era isso, justamente isso: as pessoas, quando casavam, já tinham começado a casar faz tempo. Mas não era cedo? Até ontem falava para si "Dessa água não beberei mais"! Besteira! E a sede, vai pra onde?
Entrou no restaurante e o enxergou de longe: ufa, ao menos as fotos eram dele. Tentou não mostrar logo de cara que não estava querendo casar e ter filhos e que suas células matriarcais podiam esperar caceta! Nasceu para acreditar. Ficar sozinha, deus a considere!
Tiveram um jantar agradável, ele contou sobre suas coisas, perguntou as dela. Discurso pronto, ensaiado, tudo o que ela evitou fazer.
No outro dia, ele mandou mensagens, somente. Os tempos mudaram, se bem que nunca tinha recebido flores após ter jantado com alguém. Bobagem, só teve o marido. Ex, ex! Depois ligou, ligou, e depois mais duas vezes. Não gostou. Poderia ter ficado em uma trindade providencial mas pesou a mão nas ligações. Ué, não queria saber se ia dar certo? A questão foi que pensou em tudo o que tinha vivido em seu último e único relacionamento, e ficou com medo de se afundar...Desconversou, não retornou, impôs dúvidas e defeitos encontrados com câmeras em slow motion (não era tão ultrapassada assim).
            Mas continuava em busca do príncipe encantado: que fosse matematicamente infalível, romântico em sua predestinação, valente como um homem de aço, mas sem ser o babaca da vez, a célula perfeita para sua continuação na Terra. E se fosse ele? Pior de tudo, no fundo no fundo dos lapsos escassos e momentâneos que tinha, sabia que esses não existiam.

Teve raiva do seu pai, que nunca a ensinou como trocar pneus. Da mãe, que a deixou vendo muito “Sessão da tarde” quando menina, e consequentemente dos americanos e seu cinema hollywoodiano. E até da Xuxa e sua emotividade descabida, mal resolvida. Não, não era ele. Não deu um giro em seu corpo e fez do abraço parecer uma dança; não mostrou jeito com alguma arte, nem tocava um violãozinho?
Sonhar era como droga, mesmo efeito: fazia se desligar da realidade. Só lhe tomava tempo, mas nessas horas não estava já com trinta, e sim apenas com trinta. Ainda não estava pronta. Era madura suficiente para saber pelo menos disso.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Compositor de destinos: tempo, tempo, tempo, tempo *


Há quem diga que o amor “Eros” surge em diversos momentos ao longo de nossa vida. E há também os que afirmam que tal sentimento se faz presente em um único instante da existência, onde reconhecemos o que de mais essencial e importante uma pessoa tem aos nossos olhos. Se já passamos por essa última experiência, mas não conseguimos vivê-la, como apagá-la de nosso ser? Na verdade, o tempo paradoxalmente reafirma tal reconhecimento: sabemos que amamos uma pessoa pelo arrebatamento no qual somos tomados, pelo o que agrada ao coração em detrimento de outras relações que experimentamos. Afinal, as experiências caminham pelo espaço e opomos umas às outras em busca de nosso autoconhecimento, de nossa verdade mais íntima.
E é assim, nesse caminho paradoxal que Robert Hale e Carole Fox firmarão matrimônio após 65 anos desde que se conheceram, na escola primária, quando tinham quatro anos. Robert nutria por Carole uma “chama” que foi distanciada quando atingiram 15 anos e tiveram de mudar de escola. Se reencontraram em 2010 em uma reunião na mesma escola primária onde estudaram e reviveram o momento em que já permanecia com eles, mesmo quando os corpos não estavam.
No reavimento, ambos já eram viúvos. Robert pediu o telefone de Carole, mas permaneceu ainda 18 meses sem ter coragem de ligar, pois essa estava ainda abalada com a recente perda de seu último companheiro, segundo um amigo em comum dos dois. No entanto, Carole confessaria mais tarde que desejou que ele ligasse. E quando finalmente Robert ligou e marcaram encontro, simpatizaram os sorrisos, reafirmaram os olhares e os reconheceram. Dentro dessa certeza, o ciclo efêmero e adormecido apenas se renovou pelo mistério do amor. E não foi à toa que resolveram ritualizar tal acontecimento marcando casamento pouco tempo depois.
O que faz sabermos que é essa e não outra pessoa na qual queremos viver juntos, casarmos? Em “O poder dos mitos”, Bill Moyers, ao questionar Joseph Campbell sobre tal saber, esse explica: “Isso é muito misterioso. É quase como se a vida futura, que você vai viver com essa pessoa, já lhe tivesse contado isso. Eis aqui alguém com quem você vai viver aquela vida em comum...É quase como se você estivesse reagindo em face do futuro. É aquilo que está por acontecer, falando a você. Isso tem a ver com o mistério do tempo e com a transcendência do tempo.”
Num primeiro momento confesso que lamentei  esse tempo que não volta e que poderia ter sido convertido em convivência e histórias. Mas, pensando bem, isso é uma grande ilusão e as ilusões são terríveis, há um que de verdade nelas: para mim, acredito que o amor possa ser vivido com mais êxito por esse casal do que por um em início de sua união, pois possuem experiências de seus outros relacionamentos e dimensionam a vida no tocante àquilo que de fato seja importante, por não terem mais o tempo que esse jovem casal teria. Esse passará anos e anos trabalhando (mais precisamente onze meses ininterruptos com intervalo de um mês entre eles), economizando dinheiro, sacrificando-se, para chegar num tempo em que “colherão aquilo que plantaram”.
No caso do nosso experiente e promissor casal, esse mesmo tempo que fez com que ficassem longe um do outro é o que será o responsável por uni-los de forma harmônica: o período que passarão de agora em diante será integral, real, hoje: viverão um dia de cada vez.
São os ditos cidadãos respeitáveis, aposentados, os filhos já possuem famílias, têm casas, carros. Terão a oportunidade de vivenciarem o amor como uma experiência espiritual, de amarem como um casal de jovens amantes no início da relação, mas sem se preocuparem com as expectativas da família, sociedade, com as dúvidas futuras sobre a profissão que desempenharão e o carro que deverão comprar. Eles têm a oportunidade de viverem a felicidade e a dor que só o verdadeiro amor propicia: a experiência de estarem realmente vivos.

*Oração ao Tempo, Caetano Veloso

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Snoopy


Evoluindo mesmo para quê?

                                                                                                     

A tese darwiniana da origem comum entre animais e homens representa uma contribuição fundamental e decisiva para o destronamento do homem de seu lugar de senhor absoluto do mundo natural. Antes, a criação divina do homem por Deus nos colocava em um grande abismo com relação as demais espécies. Mais especificamente em The descent of man and selection in relation to sex (1871) e The expression of emotions in man and animals (1872) Charles Darwin discorre sobre o “princípio de continuidade”: ele defende que a diferença entre nós humanos e os animais não é de tipo, mas de grau. A evolução é vista como uma função da mudança da população e não da mudança do indivíduo, conforme suas necessidades de adaptação ao meio, conservando algumas características genéticas anteriores e ocorrendo as adaptações. A evolução natural destrói, não cria. 
Darwin foi um grande promotor e entusiasta da racionalidade científica como componente de um projeto civilizador. No entanto, não limitou-se a estreitar sua visão para com os animais: isso seria estreitar seu pensamento.
Snoopy é um cão que venho atualmente ajudando a conseguir um lar. Ora, a forma como cheguei até ele me fez pensar muito mais na velhice, na solidão, na perda de capacidades do que tantas pessoas idosas que já vi. E sobre isso, até tenho recordações contundentes. Quando era pequena, por volta dos três anos, minha mãe trabalhava em um asilo para velhos. Fui algumas vezes ao seu trabalho, pois não tinha quem ficasse comigo. Me lembro de diversas personas: do homem alto e solitário parado ao lado de seu guarda-roupa; da velha senhora que achava minha mãe uma terrorista, que se aproveitava de sua condição para maltratá-la; das senhoras irmãs que adoravam falar dos primórdios de suas juventudes. Via mamãe higienizando alguns decrépitos e a expressão que as pessoas viram bebês quando ficam muito velhas me foi verdade desde cedo. Apenas trocam o choro por resmungos, desagrados e até xingamentos.
Tentando ultrapassar a barreira do absurdo, vi Snoopy querendo prosseguir enquanto esbarrava em uma parede que logo depois desviou. Enquanto os obstáculos o avisavam que era preciso mudar de rota, desci do carro e fui averiguar: cego, com começo de inanição, sujo. Os moradores da rua onde está dizem que nem sempre foi assim; ele era brincalhão, todos queriam que Snoopy adentrasse em seus lares, lhe davam comida, água, atenção. Velho, para que serviria? Agora, há um bondosa alma que convenci a abrigá-lo enquanto busco auxílio para resgatá-lo.
Da última vez que eu visitei Snoopy, ele resmungava enquanto sonhava. Sempre me perguntei com que os cachorros sonham. Fiquei feliz, porque semelhante ao conto de Cecília Meireles, “Um cão  apenas”, esse também deve esquecer enquanto dorme. Queria que também tivesse a síndrome de Walter Mitty, igual a personagem que originou seu nome: talvez assim, além de esquecer, poderia acobertar suas necessidades com fantasias esperando por dias melhores. Como todo olhar de cachorro, esse tem poesia: é a poesia do inexistente. Snoopy desaparece a todo momento para aqueles que não percebem que fome é fome, dor é dor e que a morte é a inexistência da vida, para todos.

Exercício

Publicarei algumas crônicas com base nas escritas que desenvolvi nesta disciplina em minha pós. Mas também publicarei edições da mesma. Fiquem à vontade para opinarem. Segue nova versão do texto sobre o Snoopy, edição sugestionada pelo colega de classe Sandro. Abraços...Ahhh, Snoopy continua sem lar. Caso alguém possa ajudá-lo, favor me contactar.

Além dos confins do homem

                                                                                                  

Tenho uma queda pelos animais. Sério, mais do que por gente. Já ouvi de muitos conhecidos que seres humanos produzem “cultura”, que são da mesma “raça” que a minha. Acontece que desde pequena sempre vi os bichos como criaturas próximas, fascinantes, diferentes: e ponto. Não me perguntava por que não tinham rabos, penas, voavam. Se havia um bando deles, assim como os humanos, não eram eles os estranhos, inferiores: eram apenas diferentes de mim.
Snoopy é um cão que venho atualmente ajudando a conseguir um lar. Ora, a forma como cheguei até ele me fez pensar muito mais na velhice, na solidão, na perda de capacidades do que tantas pessoas idosas que já vi. E sobre isso, até tenho recordações contundentes. Quando era pequena, por volta dos três anos, minha mãe trabalhava em um asilo para velhos. Fui algumas vezes ao seu trabalho, pois não tinha quem ficasse comigo. Me lembro de diversas personas: do homem alto e solitário parado ao lado de seu guarda-roupa; da velha senhora que achava minha mãe uma terrorista, que se aproveitava de sua condição para maltratá-la; das senhoras irmãs que adoravam falar dos primórdios de suas juventudes. Via mamãe higienizando alguns decrépitos e a expressão que as pessoas viram bebês quando ficam muito velhas me foi verdade desde cedo. Apenas trocam o choro por resmungos, desagrados e até xingamentos.
Tentando ultrapassar a barreira do absurdo, vi Snoopy querendo prosseguir enquanto esbarrava em uma parede que logo depois desviou. Enquanto os obstáculos o avisavam que era preciso mudar de rota, desci do carro e fui averiguar: cego, com começo de inanição, sujo. Os moradores da rua onde está dizem que nem sempre foi assim; ele era brincalhão, todos queriam que Snoopy adentrasse em seus lares, lhe davam comida, água, atenção. Velho, para que serviria? Agora, há um bondosa alma que convenci a abrigá-lo enquanto busco auxílio para resgatá-lo.
Ao procurar a responsável pelo cão, dei de cara com uma mulher que me deu motivos parcos e esfarrapados para ter abandonado Snoopy. De que o cachorro acostumou a ficar na rua a tornar-se agressivo. Percebi que essa estava mais preocupada em se justificar para o namorado do que com o ser que lhe proporcionou tantos momentos agradáveis enquanto era útil.
O paradigma cartesiano-kantiano de que os animais são coisas não é algo somente aplicado a ciência contemporânea e as indústrias: o que faz um dono abandonar seu cachorro no momento em que mais precisa é não levar em conta que esse ser, cuja forma é diferente, possui características que nos aproximam dele. Fome é fome, dor é dor. Morte é a inexistência da vida, para todos.  
Ao me tornar vegetariana este ano, quis que meus atos fossem condizentes com minhas ideias. Parar de comer carne foi algo difícil: no começo me sentia parte de um desenho animado, onde o cheiro dos lanches, do churrasco vendido na rua fazia com que eu visse todos em formato de salsicha ou linguiça. A verdade, passado o período crítico, por volta de um mês, e quase um ano de minha decisão, sou uma pessoa muito mais feliz nesse sentido.
A tese darwiniana da origem comum entre animais e homens representa uma contribuição fundamental e decisiva para o destronamento do homem de seu lugar de senhor absoluto do mundo natural. Antes, a criação divina do homem por Deus nos colocava em um grande abismo com relação as demais espécies. Mais especificamente em The descent of man and selection in relation to sex (1871) e The expression of emotions in man and animals (1872) Charles Darwin discorre sobre o “princípio de continuidade”: ele defende que a diferença entre nós humanos e os animais não é de tipo, mas de grau. A evolução é vista como uma função da mudança da população e não da mudança do indivíduo, conforme suas necessidades de adaptação ao meio, conservando algumas características genéticas anteriores e ocorrendo as adaptações. A evolução natural destrói, não cria. 
Darwin foi um grande promotor e entusiasta da racionalidade científica como componente de um projeto civilizador. No entanto, não limitou-se a estreitar sua visão para com os animais: isso seria estreitar seu pensamento. 
Da última vez que eu visitei Snoopy, ele resmungava enquanto sonhava. Sempre me perguntei com que os cachorros sonham. Fiquei feliz, porque semelhante ao conto de Cecília Meireles, “Um cão  apenas”, esse também deve esquecer enquanto dorme. Queria que também tivesse a síndrome de Walter Mitty, igual a personagem que originou seu nome: talvez assim, além de esquecer, poderia acobertar suas necessidades com fantasias esperando por dias melhores. Como todo olhar de cachorro, esse tem poesia: é a poesia do inexistente. Snoopy desaparece a todo momento para aqueles que não percebem que fome é fome, dor é dor e que a morte é a inexistência da vida, para todos.